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TOP 10 DE 2016 DO CINECLUBE DELAS

O QUE ESTÁ POR VIR (L’avenir, Alemanha], de Mia Hansen-Løve 2

Isabelle Huppert em “O que está por vir” de Mia Hansen-Løve

As curadoras do Cineclube Delas elegeram os 10 melhores longas-metragens dirigidos por mulheres que estrearam em circuito comercial nos cinemas brasileiros em 2016.

Veja abaixo a lista em ordem alfabética, com destaque para o melhor filme!

MELHOR FILME: O QUE ESTÁ POR VIR [L’avenir; Alemanha], de Mia Hansen-Løve.

O QUE ESTÁ POR VIR (L’avenir, Alemanha], de Mia Hansen-Løve 1

Na sequência inicial de “O Que Está por Vir”, a professora de filosofia Nathalie (Isabelle Huppert) avalia o ensaio escrito por um de seus estudantes a partir da seguinte questão-tema: “Conseguimos nos colocar no lugar do outro?” É esta pergunta pela alteridade que se torna o diapasão do filme de Mia Hansen-Løve. Pelos acontecimentos na vida da protagonista, vamos compreender a trajetória de uma mulher que doou a vida aos outros – ao marido, aos filhos, à mãe, aos alunos – e, de repente, se percebe sem estes âncoras afetivos, porque a vida também é feita de perdas, de transformações e reviravoltas. Por mais que se tente, não há como controlar o desejo do outro (e todo o debate sobre a utopia e o coletivismo se encaixam aí). Há uma certa melancolia no filme, mas não há espaço para o sombrio. A dor é sentida, mas alguma hora ela passa. “O Que Está por Vir” é também um filme sobre desapego (de sentimentos, de ideias, de convicções) e sobre viver o presente. É o filme que traz Huppert na sua melhor presença como atriz em 2016. [escrito por Camila Vieira]

 BODY [Cialo; Polônia], de Malgorzata Szumowska.
BODY [Cialo, Polônia], de Malgorzata Szumowska. FOTO Jacek Drygała1BODY [Cialo, Polônia], de Malgorzata Szumowska. FOTO Jacek Drygała
Por meio de três personagens (um detetive criminalista, uma jovem bulímica e uma terapeuta médium), “Body” é um filme em torno da morte. De que modo nossas vidas são afetadas pela certeza da finitude? O que ainda pode o corpo diante do inevitável perecimento? A atmosfera do filme poderia cair no clichê do sombrio e do grotesco, no entanto a diretora polonesa Malgorzata Szumowska prefere construir cenas em que o estranhamento é sempre acompanhado de ironia. O que ainda é mais singular no filme é a forma como consegue instaurar dúvidas em quem assiste (o que pode ser interpretado por alguns como “ausência de ponto de vista”, mas é uma enorme generosidade com o espectador, que pode buscar suas próprias respostas diante das situações dadas). É justamente tal procedimento que dá força ao filme e que levou a realizadora a ganhar o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim 2015 (dividindo o prêmio com o romeno Radu Jude, de “Aferim!”). [escrito por Camila Vieira]

CAMPO GRANDE [Brasil/ França], de Sandra Kogut.

Campo Grande Sandra Kogut Campo Grande Sandra Kogut1Do verde das árvores à esperança depositada em um endereço escrito no verso de um bilhete de loteria, “Campo Grande” de Sandra Kogut é uma experiência de imersão numa cidade fragmentada. A constituição das imagens que servem de cenário para a trama, em um bairro da elite carioca em obras, remete à transformação de uma cidade fissurada, assim como a da vida da protagonista Regina, interpretada por Carla Ribas. Obras que acabam por perfurar a bolha da especulação imobiliária, aproximando a periferia das classes mais abastadas da cidade, numa falsa sensação de mobilidade urbana. Duas crianças, Ygor (Ygor Manoel) e Rayane (Rayane do Amaral), oriundas do bairro periférico que dá nome ao filme são deixadas na porta do apartamento de luxo de Regina, fazendo-a lembrar daquilo que é constantemente invisibilizado e marginalizado socialmente. A rua invade a casa, num exercício, ‘a priori’ de rejeição e animosidade, mas que vai dando lugar à empatia, à alteridade, ao afeto, à solidariedade, para alcançar uma outra apreensão do real. A busca da protagonista pela mãe das crianças é, na verdade, uma busca por si mesma, uma busca por um sentido que muitas vezes se perde na volatilidade das relações. Com ares naturalistas, o filme de Sandra Kogut aponta que os deslocamentos ainda são apenas geográficos, perpetuando a ideia de que a aproximação de dois mundos radicalmente opostos continua intangível. [escrito por Samantha Brasil]

CINCO GRAÇAS [Mustang; Turquia/ França/ Alemanha/ Qatar], de Deniz Gamze Ergüven.

CINCO GRAÇAS Mustang, Turquia França Alemanha Qatar de Deniz Gamze Ergüven.

Após uma inocente brincadeira de “briga de galo” com meninos quando voltavam do colégio, cinco irmãs – Lale (Güneş Nezihe Şensoy), Nur (Doğa Zeynep Doğuşlu), Ece (Elit İşcan), Sonay (Ilayda Akdogan) e Selma (Tuğba Sunguroğlu) – são acusadas pela vizinhança de estarem praticando atos libidinosos pelas ruas de um vila turca onde vivem. Esse ato aparentemente inocente vai mudar radicalmente a realidade das cinco meninas, que aos poucos vão se vendo enclausuradas dentro do próprio seio familiar. Apoiada em memórias autobiográficas e em relatos contados pelas mulheres que vivem sob o manto do islamismo na Turquia, Deniz Gamze Ergüven, em seu longa-metragem de estreia, traça um perfil do sistema patriarcal que oprime e mata diversas meninas que precisam se “tornar mulheres” cada vez mais cedo em nome “da moral e dos bons costumes”. Muros e janelas são gradeados e o direito aos estudos lhes é retirado. A casa deixa de ser um lugar acolhedor para se transformar numa assustadora “fábrica de esposas”.CINCO GRAÇAS Mustang, Turquia França Alemanha Qatar de Deniz Gamze Ergüven1
A fotografia que antes era dourada e solar, vai dando lugar a um tom acinzentado e escurecido, assim como a vida das protagonistas, conferindo ares de tensão e suspense ao roteiro. Para que a honra e a imagem da família continuem imaculadas, casamentos começam a ser arranjados pela avó e pelo tio que criam as Cinco Graças, já que os pais faleceram quando as meninas eram ainda muito pequenas. Pouco a pouco vamos vendo as irmãs se separarem. Um padrão de feminilidade enfatizada a fim de atender a uma masculinidade hegemônica é imposta àquelas meninas que antes confrontavam a tudo e a todos. Suas esperanças vão sendo ceifadas. Em determinado momento da narrativa, durante uma refeição, as seguintes palavras são ditas por uma voz masculina que parece vir de um programa de rádio ou televisão: “A mulher deve ser casta, pura, e saber bem os limites que lhe são dados. Não deve rir na frente dos outros, nem fazer algum gesto sedutor. Deve proteger sua castidade. Onde estão as meninas que ficavam vermelhas quando olhadas?”. Ao optar pelo naturalismo das imagens, fica claro o tom de denúncia que a diretora pretende dar ao seu filme, que é guiado pelo olhar de Lale, a carismática irmã caçula. Adicione a química existente entre as meninas que interpretam as irmãs ao excelente trabalho de direção de atores de Ergüven. Não à toa, o filme lhe rendeu 4 prêmios César, dentre eles o de melhor roteiro original e melhor filme de estreia, além do Goya de melhor filme europeu e a indicação de filme estrangeiro no Oscar. [escrito por Samantha Brasil]

CORAÇÃO DE CACHORRO [Heart of a dog; Estados Unidos], de Laurie Anderson.

CORAÇÃO DE CACHORRO [Heart of a dog, Estados Unidos], de Laurie Anderson2

“Coração de Cachorro” é menos um filme sobre a morte que sobre o amor. A narrativa ensaística de Laurie Anderson é carregada de lembranças amorosas daqueles que se foram, mas que de alguma forma permanecem – já não mais em sua concretude, mas por meio de rastros, traços, ruínas, fragmentos. Por meio de colagens de diversos materiais (desenhos, fotos, vídeos, filmes) e sobreposições de texturas e sons, o filme deixa-se afetar pela espectralidade dos que partiram. “Coração de Cachorro” é, antes de tudo, um filme em torno dos fantasmas que configuram nossas vidas, das presenças ausentes que nos impulsionam a viver. É um sopro, um respiro no meio de tanta indiferença à dor do outro. É poder sentir o luto, sem anestesiá-lo e sem ser paralisado por ele. [escrito por Camila Vieira]

MÃE SÓ HÁ UMA [Brasil], de Anna Muylaert.

MÃE SÓ HÁ UMA [Brasil], de Anna Muylaert.

MÃE SÓ HÁ UMA [Brasil], de Anna Muylaert.1Com “Mãe Só Há Uma”, Anna Muylaert dá continuidade à reflexão crítica sobre a classe média, agora por meio do protagonista Pierre/Felipe – um adolescente de gênero fluido, que experimenta diferentes possibilidades de vivência da sexualidade pelo viés da performatividade. Afetada por este corpo em formação, em estado transitório, a câmera do filme quase tateia a pele de Pierre/Felipe. É um filme mais sensorial do que o anterior de Muylaert, “Que horas ela volta?” No entanto, há algumas ressonâncias entre Pierre/Felipe e a Jéssica, de “Que horas ela volta?”. Os dois personagens desestabilizam a ordem de uma cena constituída de onde eles não pertencem, seja a casa dos pais biológicos no primeiro caso ou a casa dos patrões da mãe empregada no segundo. [escrito por Camila Vieira]

MATE-ME POR FAVOR [Brasil], de Anita Rocha da Silveira.

MATE-ME POR FAVOR [Brasil], de Anita Rocha da Silveira.

Em “Mate-me Por Favor”, Anita Rocha da Silveira amplia um escopo que já vinha explorando em seus curtas-metragens. Adolescência e sexualidade são temas que, conjugados, perpassam toda a sua filmografia. Em seu longa-metragem de estreia, a diretora flerta com o ‘thriller’ para, usando arquétipos típicos do gênero em que um ‘serial killer’ é o elemento chave da narrativa, ampliar o debate sobre o esvaziamento da vida dos jovens de classe média. Mas não só isso. E aí vem o ponto alto do filme: “Mate-me Por Favor” é uma ficção sobre violência contra mulheres, sobre feminicidio. Meninas vão sendo brutalmente assassinadas, aparentemente sem motivo. A clara ênfase na falta de motivação para as mortes ressoa na intenção da diretora em destacar os perigos que mulheres correm pelo simples fato de serem mulheres e, principalmente, por transgredirem as regras de comportamento esperadas dentro de uma ‘feminilidade enfatizada’ que o sistema patriarcal insiste em difundir para controlar e subjugar seus corpos.MATE-ME POR FAVOR [Brasil], de Anita Rocha da Silveira.2 As quatro amigas que conduzem a trama, com destaque para a protagonista Bia (Valentina Herszage), exalam uma química muito bem aproveitada no excelente trabalho de direção de atores. Some-se a isso ao espetacular uso do som e uma trilha sonora quase sempre diegética que conjuga músicas Pop ao Funk carioca da década de 90 para exprimir os sentimentos dos personagens. Impossível não ressaltar a fotografia e direção de arte do filme que harmonizam o clima de tensão e suspense que o roteiro, também escrito por Anita, pretende conferir ao longa. A fascinação de Bia pela morte – lembremos que 13 mulheres são assassinadas por dia no Brasil – remete a um desencantamento do mundo que culmina no desfecho em que vemos uma horda de adolescentes sorumbáticos rumo ao nada existencial: a um vazio de expectativas e sensações. As jovens protagonistas (Valentina Herszage, Dora Freind, Julia Roliz e Mariana Oliveira) conquistaram em conjunto o prêmio independente Bisatto D’Oro de atuação no 72º Festival de Veneza (2015) e Anita ganhou o prêmio de melhor direção no Festival do Rio (2015). [escrito por Samantha Brasil]

MEU REI [Mon roi, França], de Maïwenn.

MEU REI [Mon roi, França], de Maïwenn.2

MEU REI [Mon roi, França], de Maïwenn.1

“Joelho significa capacidade de descansar, alcançar e até recuar, porque é uma articulação que dobra apenas para trás. Quando o joelho dói pode-se imaginar que temos dificuldade em aceitar um acontecimento em nossa vida, e a cura passa também por este caminho psicológico.” Com essas palavras temos o primeiro diálogo do filme onde a terapeuta de Tony (Emmanuelle Bercot) lhe pede para refletir sobre o impacto que o psicológico pode ter na causa de um seríssimo acidente de esqui que a deixou com o joelho imobilizado. Inércia, imobilidade, passividade, fragilidade, são sensações que acometem mulheres que vivem sob o manto de um relacionamento abusivo. E é sobre isso que se trata esse magnético filme de Maïwenn. Conjugando de forma eficiente e harmônica eventos do presente e do passado, acompanhamos todas as etapas do relacionamento de Tony e Georgio (Vincent Cassel). Trata-se, portanto, de um melodrama intenso, porém sem jamais romantizar os arquétipos que constroem o carisma e a sedução inerentes ao personagem de Cassel que encarna o macho alfa típico das sociedades patriarcais pautada na dominação masculina. A construção visceral de uma personagem completamente dependente química e emocionalmente de seu parceiro, rendeu a Bercot o prêmio de melhor atuação feminina no Festival de Cannes (2015). [escrito por Samantha Brasil]

RALÉ [Brasil], de Helena Ignez.

RALÉ [Brasil], de Helena Ignez.

“Ralé” é a força da transgressão e do celebratório pela vitalidade dos corpos femininos de Helena Ignez, Djin Sganzerla e Simone Spoladore. Cheio de referências e assumindo a metalinguagem como forma fílmica, “Ralé” é fragmentado, livre, montado a partir de pedaços de histórias, de trajetórias, compondo múltiplos desejos e protagonismos.
É um filme sobre uma geração que inventou um novo modo de vida, mas também é um filme sobre como ser mulher, RALÉ [Brasil], de Helena Ignez.1diante de tantas causas políticas que são importantes. É o aparecimento de Jarda, a hippie que acredita em Deus, e também o retorno de Sonia Silk pelo corpo de Helena Ignez. Ralé é um filme sobre como viver junto, com toda a ironia que ela possibilita, mas sem exigir amarras. [escrito por Camila Vieira]

 

SINFONIA DA NECRÓPOLE [Brasil], de Juliana Rojas.

SINFONIA DA NECRÓPOLE [Brasil], de Juliana Rojas1

Deodato (Eduardo Gomes), aprendiz de coveiro, é uma espécie de neo Macunaíma que ao invés de metaforizar tendo como ponto de partida o nascimento, abarca o paradoxo do perecimento, do falecimento, da falência das relações. Em “Sinfonia da Necrópole”, Juliana Rojas retoma temas já abordados em “Trabalhar cansa”, como dicotomia de classe social e modernização dos meios de produção, mas desta vez de forma irônica e escrachada a fim de fazer uma crônica social musicada da nossa realidade. O excelente argumento da LMBrasileiros - Sinfonia da Necrópole. Divulgação‘morte como capital’ coloca em xeque as principais instituições fomentadoras do capitalismo: a Religião que aprisiona através da expiação dos pecados, o Estado que regulamenta as relações hierárquicas de poder e o Empresariado através da exploração da mais valia dos trabalhadores. Jaqueline (Luciana Paes) funciona na trama como uma espécie de anti-heroína, um elemento de fora, que desestabiliza tanto a questão da estrutura organizacional do cemitério quanto das relações de gênero, uma vez que aparece para subverter a logica já preestabelecida, num universo eminentemente masculino, exercendo uma função de comando e autoridade. A verticalização proposta no filme, como uma forma de modernização e otimização dos espaços dentro do cemitério, reflete o modo como aquele universo – e porque não, o nosso – se organiza e vem soterrando aqueles que estão fora dos círculos privilegiados. Apesar do tom de galhofa, há um interessante debate sobre ética que permeia toda a narrativa. A ousadia de Juliana Rojas de se aventurar em um gênero raramente explorado na filmografia brasileira já é, por si só, o ponto alto deste filme. [escrito por Samantha Brasil]

FONTE: CINECLUBE DELAS

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