Entrevista - Renata Martins

Entrevista: Renata Martins, roteirista e diretora

Convidamos a roteirista e diretora Renata Martins para falar sobre representação das mulheres nas telas e de sua experiência em projetos como a websérie “Empoderadas” e em “Pedro e Bianca”, a série produzida pela TV Cultura, voltada ao público adolescente, vencedora do 2º Prêmio Emmy Kids Internacional na categoria séries infantojuvenis.

Há um consenso sobre a sexualização da mulher em filmes e novelas. Podemos afirmar que é padrão em vários países. Como roteirista, de que forma você acha que a representação de personagens femininas, especialmente as mulheres negras, pode caminhar para outra direção?

Eu acredito que a construção do que se entende por feminino no cinema ou em outros meios audiovisuais se dá pela mediação do olhar de homens brancos de classe média. São eles que ao longo da história constroem o imaginário feminino tendo o audiovisual como ferramenta. Durante muito tempo, nós consumimos essas imagens com pouca criticidade. Claro, que há pensadoras e movimentos feministas pautando, mas o grande público ainda está distante de criticar estas construções.

Estamos todas inseridas em uma lógica machista sexista, racista e classista, desta forma, as mulheres de outras etnias, sobretudo as negras, acumulam esse arcabouço de estereótipos em suas representações e para que tenhamos outras construções é preciso ter novos olhares, novas narrativas.

Neste sentido, acredito que a internet tenha possibilitado novas produções e cavado diálogos que antes existiam em esferas menores. Em 2015 por exemplo, um movimento iniciado na internet pela arquiteta e militante Stephanie Ribeiro, forçou o Itaú Cultural ampliar o debate sobre representação, tradição, arte e privilégios.

Hoje eu penso que “o caminhar para outra direção” se dá ao mesmo tempo em que trocamos a roda. Isto é, ao mesmo tempo em que é necessário ampliar a presença das mulheres, sobretudo das negras, nas escolas de comunicação, nos coletivos, nos cursos livres, assim como, nas produtoras, nas produções, nas discussões feministas interseccionais, também é preciso dialogar com as mulheres que decidem, mulheres que ocupam espaços de poder.

É importante que as mulheres brancas entendam que as demandas são diferentes e que se há uma construção do feminino em relação a elas, sobre nós, mulheres negras, sequer tivemos o direito a construir e aos olhos do público é como se fossemos uma “coisa” muitas vezes sem voz, sem sentimento, sem humanidade. Desta forma, se as mulheres brancas produzem pouco, nós mulheres negras produzimos quase nada. Não digo isso como se fosse uma competição “quem sofre mais” e sim, para que possamos ter os mesmos espaços e representação a partir do nosso lugar de fala.

É preciso criar políticas públicas, editais, seminários, simpósios, prêmios. É preciso produzir e refletir a todo instante. É preciso pautar espaços que perpetuam o racismo em nome da arte, seja na internet seja na rua. E, não podemos esquecer que além de fazer tudo isso é preciso dialogar com os homens sensíveis à essas construções, é preciso aproximá-los dessa discussão para que compreendam seu lugar de privilégio histórico e certamente, isso não se dará muitas vezes, entre risos e afagos, será através de muita resistência e posicionamento.

Um dos episódios da websérie Empoderadas teve mais de um milhão de visualizações. Como você analisa este formato e de que maneira a série mexeu com a percepção das mulheres sobre racismo e machismo na sociedade?

Sim, o episódio #07 da Mc Soffia viralizou. Um vídeo de quatro minutos e meio que acessou, de alguma forma, um lugar no imaginário das pessoas, assim como acessou o meu quando a vi pela primeira vez e pensei: O mundo precisa conhecer essa menina.

Acredito que ao longo da filmagem nós não tínhamos a clareza da potência do vídeo. No entanto, havia um desejo de aproximar a Soffia do público, eu queria que as pessoas tivessem o mesmo ponto de vista que o meu, queria que elas a vissem como eu a vi: uma garota inteligente, falante, talentosa, divertida e consciente de sua negritude. Eu queria, ainda, que as pessoas não desviassem o olhar durante a sua fala, porque ali, havia uma mensagem importante para crianças e adultos. A escolha da câmera na mão e os planos fechados intercalados com trechos do show foram escolhas para transmitir esse desejo de aproximação com a Soffia e a ampliação do discurso dela.

Após ler quase todos os comentários e compartilhamentos, eu penso que o vídeo veio em um momento em que muitas pessoas estavam desacreditadas sobre muitas coisas, aí vem uma garotinha de onze anos cantando rap e trazendo, além da discussão racial, a importância da escola, da família neste processo de formação da identidade racial. Acho que ela trouxe um pouco de alento para algumas pessoas, sobretudo para as mulheres negras adultas. Recebemos o comentário em inglês:

“ Deus te abençoe minha pequena Rainha! Você é uma inspiração pra mim, uma mulher feita. É o tipo de garota que eu queria ter como referência quando eu era mais jovem. Na sua idade eu comprei meu primeiro creme de branqueamento para pele devido ao ódio que eu sentia por mim mesma aprendido na escola, onde o racismo começa. Obrigada Soffia, você é LINDA, você é PODEROSA, você é inteligente para Além da sua idade. Continue empoderada, continue formidável, continue Africana.” – Zoorgon Trollstones.

O projeto da série Rua Nove contou com escritoras e escritores negros e periféricos que integraram a equipe de roteiristas. Como foi este processo?

O Rua Nove é um projeto idealizado pelo cineasta Renato Cândido e ele me convidou para desenvolvê-lo com ele. Nós trabalhamos juntos na série Pedro & Bianca (TV Cultura) e ao final dela, o Renato me apresentou seu desejo em contar a história de Zinho, um garoto negro que viveu nos anos de 1990 e que teve seu despertar para negritude e questões sociais através do RAP. Renato e eu vivemos os anos de 1990 e essa memória era muito forte em nós. A ausência do Estado no que tange as políticas públicas, ao contrário da presença do Estado através do seu braço armado, assim como, na contagem dos corpos, sobretudo, corpos negros.

A partir deste primeiro mote iniciamos a construção da história e nós nos fizemos várias perguntas sobre quem era o Zinho? O que ele queria? Como era sua família? Qual o contexto econômico em que estávamos inseridos? Qual a importância do RAP na vida dos meninos negros da periferia, sobretudo o rap dos Racionais Mc’s? E as mulheres, quem eram essas meninas, mulheres negras da periferia e como ela apareceriam na série?

A partir das respostas que encontramos, sentimos a necessidade em transformar esse processo em uma construção orgânica e formativa, isto é, compartilhar o conhecimento adquirido na sala de criação de Pedro e Bianca, além disso, a pergunta: onde estavam os profissionais negros do audiovisual? ”, era uma constante.

Talvez, a sala de criação de Pedro e Bianca tenha sido a primeira na história da teledramaturgia em ter dois profissionais negros contribuindo na construção das personagens e roteirizando. E essa constatação é bastante sintomática sobre o racismo estrutural que existe na produção audiovisual e entendemos o projeto Rua Nove como algo que poderia quebrar essa lógica ou expor essa ferida.

A busca pelas respostas nos trouxe novas perguntas: se nas universidades em que cursamos, éramos os únicos ou um dos únicos, será que não existimos quanto criadores de narrativa? Se existimos, quem é que vai investir em nossa formação? Será que depois de Pedro e Bianca seremos convidados para outros projetos? Ou fomos convidados por sermos negros? Escrita é talento ou prática? Ou os dois? Quem são os nossos escritores? Quem poderia escrever essa história conosco?

A partir das respostas encontramos vários nomes de escritoras e escritores negros que poderiam construir conosco a narrativa. Segundo o Renato, a série “Subúrbia” foi escrita por Paulo Lins como um romance. Desta premissa surgiu o desejo de aproximar escritoras e escritores ao projeto tendo como base a estrutura narrativa que já dominavam, contos, crônicas, romance e, os roteiristas traduziriam isso para uma escrita audiovisual. Entre os escritores convidamos o quadrinista Marcelo D’Salete, o poeta Sacolinha e a escritora Raquel de Almeida. Entre os roteiristas, Francini Barbosa, Rogerio Pixote, Rogério de Moura e Joyce Prado. Além de Renato e eu que coordenávamos, mas também roteirizamos o primeiro e último episódio.

Foi um processo fortalecedor de troca e de construção coletiva, além dos escritores conversamos com várias pessoas que viveram os anos noventa em quebradas distintas e que nos alimentaram na construção. Rua Nove foi um processo de autoconhecimento, formação, construção de discurso, de vários discursos em “primeiras pessoas. ”

Como surgiu o convite para a série Pedro e Bianca, até então você nunca tinha escrito para TV?

O Renato estava na série, havia entrado há um mês mais ou menos e sentiu a necessidade de ter uma parceira, alguém para dividir o montante dos episódios. A princípio eu neguei, agradeci, pois trabalhava fixo em outro lugar e receava não conseguir conciliar, além da insegurança de escrever para um formato que eu desconhecia.

Eu tinha apenas dirigido e roteirizado um curta e tinha um outro projeto em andamento. Na época, a Márcia Faria me ligou, pediu uma sinopse, um roteiro e os trabalhos que eu havia feito. Enviei tudo que tinha. Naquela noite, eu iria para um festival em San Juan, na Argentina. No dia seguinte a Márcia me liga e disse que o Cao queria me conhecer se eu podia tal e tal horário. Eu disse sim, mas era quase impossível, pois, não podia dar um erro no voo, calculei o tempo de chegada com desembarque com táxi, com guardar a mala na casa de uma amiga e a chegada até a Livraria da Vila.


No café estavam Cao, Marcos Lazarini e a Márcia. Conversamos bastante, o Cao pediu um pão de queijo, a princípio nós não queríamos, mas quando o pão de queijo chegou, ele o dividiu em quatro e comemos todos juntos. Entre um quarto de pão de queijo e café, ele contou sobre sua experiência na educação eu contei sobre a minha inexperiência como roteirista, mas deixei claro que queria compor essa equipe. Ao final ele disse: Ela é a própria Bianca.

O primeiro roteiro foi muito difícil, mas tive apoio do Renato que lia as coisas que eu escrevia, da equipe, sobretudo dos coordenadores, eles já estavam afinados com a história, com as curvas tudo. Eu tive que ler tudo em poucos dias e já entrar no ritmo. Acredito que tenha sido um divisor de águas em minha profissão, fazer parte daquele processo, era como seu eu dissesse para mim mesma: Eu posso fazer o que eu quiser. E acho que esse meu entendimento passou para a personagem, em um dos episódios roteirizados por mim que eu mais gosto é “Cada voto conta” no qual a Bianca, uma adolescente negra da periferia, deseja ser presidente, nem que seja do grêmio.

A discussão sobre a participação das mulheres no mercado do audiovisual é cada vez mais presente e visível. Como você analisa o momento atual?

Acredito que esse movimento feminino com viés feminista está pulsante em vários setores da sociedade, no Brasil e no mundo e, certamente, reflete no audiovisual. Muitas de nós, mulheres do audiovisual, estamos questionando a naturalização dos lugares que ocupamos e, às vezes, os questionamentos trazem movimentos e aproximações.

É importante que estejamos atentas aos “recortes” (étnicos de gênero e de classe) e que a partir deste olhar sensível, possamos fortalecer vários perfis de mulheres.

No entanto, sou otimista, acredito que a médio/longo prazo teremos transformações significativas no modo de pensar e produzir audiovisual. É um movimento importante, crescente e sem volta.

Em termos de construção, quais são as suas personagens preferidas em filmes e séries?

Há várias personagens que eu gostaria de ter construído no audiovisual, não sei se são as minhas preferidas, mas são construções que me instigam e inspiram, entre elas Annelise Keating, vivida por Viola Davis em How to get away with Murder. Gosto da complexidade e da humanidade que é atribuída à personagem. Sua subjetividade quanto mulher negra é preservada, mas ser negra, não é a questão central da personagem, eu não sei quem ela é, do que ela é capaz, mas ela tem uma força que me faz acompanhar as temporadas e tentar entender que é Anna Mae e quem é Annelise.

Virginia Woolf, vivida por Nicole Kidman e Laura Brown, por Julianne Moore, ambas em As Horas. Mulheres que não se encaixam no seu tempo, nos lugares que foram reservados para elas e também, Marieme, vivida por Karidja Touré, no filme Garotas, por sua jovialidade, maturidade ao longo da narrativa, para mim, ela também faz parte das mulheres que não se encaixam.

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